terça-feira, 2 de abril de 2013

Espera


Sei a espera. Conheço-a como a palma das minhas mãos. Está entranhada em mim como carne em sangue e chamas. Sou noite negra de véu estrelar. Anjo vingador crivado de setas. Sei a espera. Sinto a sua aspereza percorrer-me o corpo, ferindo-me e gozando do meu lamento.

 O dia nunca mais chega, a vida nunca mais começa. Fico aqui: no limbo do ser, na orla do desconhecido, esperando e desesperando, ouvindo o ardor de outros seres assumidamente felizes, naturalmente ingénuos. Não há felicidade que me alcance, não há querer que me falte.

Amaldiçoada alma, sem luz nem brilho que procura algo, nem que seja o inferno dos tormentos, pois só assim poderá saber se vive, se o pulsar que sente em seu peito é de alguma forma real. Sentir lenta e desesperadamente, numa contradição dos sentidos, que revira as conceções do universo, que alimenta os limites num sussurro morno e quebrado de quem já não sabe o que fazer.

Sei a espera. Espero. Porque não sei mais nada.


Amar


  Um beijo dado ao luar num abraço apertado se fundiu nas horas crepusculares que antecedem o nascer do dia. Peles misturam-se na ânsia de corpos suados em êxtase incontrolado, como se houvesse outra forma. Como se fosse possível amar com calma, como o amor fosse uma coisa controlável. Como se quem o diz, conhecesse alguma coisa sobre amar.

Amar é um verbo inconjugável, inclassificável, inalcançável. Não há dicionário que faça jus ao seu significado, não há poeta que chegue ao limiar da sua grandeza. Incontrolável, sim: insuperável, inolvidável. O amor. Quatro letras que abraçam o universo em ritmos inconstantes e mudos, só audíveis a Afrodite.

O Amor está sempre pronto

Sabes que é fácil quando a mão desliza sem consciência nas curvas do teu corpo mole: quente pelo suor erótico de um sem mundo de sensações que te deixam preso no limbo do prazer. Tens de estar exausto, quase morto até, só assim consegues experimentar o ópio dos deuses, aquele segundo esquecido pelo tempo em que a olhas nos olhos e percebes que estás perdido.

Sim, perdido. Arrebatado, louco.

E ela prende-te sem te tocar, leva-te ao lugar mais longínquo do planeta sem sequer se mexer. Ela controla-te e tu dás graças por isso. Queres ser controlado por ela. Apenas por ela. Sentes o teu corpo a reagir de novo à medida que o crepúsculo aparece e ela está pronta. De novo e sempre. Porque o amor está sempre pronto, mesmo que o sexo ainda não.

Ausência

E doeu como nunca pensou ser possível. Doeu todos os dias um pouco mais. A ausência dele fê-la ausentar-se de si mesma. Se ele não estava, ela também não: apenas permanecia o corpo que tantas vezes foi seu; permanecia o rosto que ele tantas vezes acariciara; permanecia a voz - que só fazia sentido quando ele a ouvia.

O resto de si estava nele: cravado em cada momento em que julgaram ser imortais; em cada memória que ainda queimava no seu peito. Ele ainda ardia nela; ainda soprava chamas no seu coração com a mesma intensidade do primeiro olhar. Só que agora nem ela própria sabia onde procurar por si. E o seu corpo fracassou, esfomeado de si, pedindo por ele num mundo que não era mundo se ele não estivesse; numa vida que não era sua, se não a partilhassem.

 E ausência dele acabou por matá-la lentamente e, nem por um segundo, ela fez por se levantar. Aguentou uma existência cega, onde apenas estava viva na escuridão dos sonhos; onde ele a esperava, transformando a ausência no alimento dos seus dias com a força de um simples “Amo-te”.  Só por um segundo fingir que a eternidade de uma vida inacabada durou o momento de um último sorriso de amor.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

What's left of me?


Golpes neste malogrado corpo
Sacodem as feridas com sal.
Uma e outra vez afundam lágrimas antigas
Em desejos vários pertencentes a outras vidas.
Estende-se então o tabuleiro do destino
E escolhe-se as peças do jogo final.
Num que não podemos ganhar.
Apenas (fingir) jogar.
A Fera impaciente ronda e ameaça,
Morde e trespassa
Tudo aquilo que o sonho conquistou.
E então o que fica?
Ou melhor o que foi?
Nada, apenas isso.
Um nada que um dia pareceu o mundo em suspenso;
Um viver tão intenso que o vento arrastou
E na poeira do tempo se perdeu.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Onde ando?


Esperei que o tempo curasse;
Que a ferida fechasse,
A dor apagasse
E a vida seguisse.
Esperei;
Sentei-me impávida,
No banco dos derrotados,
Perto de uma estrada sem rumo,
Onde fiquei abandonada.
A solidão não nos dá asas;
Não nos arranca o passado da pele.
O tempo não varre memórias,
A tempestade continua
E eu não me quero abrigar.
Tento não pensar
Esforço-me por não querer.
Sou só vontades, sonhos desfeitos,
Num sopro esquecido pelo vento.
Quando me devo levantar?
Acho que já nem sei caminhar,
Enfrentar o horizonte,
Como um dia o fizemos: juntos.
Não sei falar sem que ninguém me ouça,
Fingir ser um todo
Quando fico-me apenas pela metade.
Aquela que um dia foi tua.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Música


Sinto o dedilhar das notas,
Melodiosas e vitais.
Balanço no seu afago,
Nesta música que te trago,
Esta voz que me é
Um sopro do teu amor.
Ao ritmo dos nossos beijos,
Ao rimar das nossas palavras,
Viajamos pelas estradas,
Que nos levam com desejos,
De descobrir novos sons.
Mil e uma pautas de sonhos
Apenas entre estas mãos;
Que orquestram a vida
Arrebatando-nos em ovações,
Nos conduzem à partida,
A um cosmos perfaço de sensações.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Fui


Fui embora.
Parti do éden
De grama verde,
Paisagem idílica
E maçãs sedutoras.
Fugi do lençol amado,
Da segurança da terra,
Daquela vida que erra,
E nos prende no seu laço.
Procurei pelo mundo,
Decidindo o tempo.
Abri os meus olhos,
Ofereci a minha alma,
Em busca de novos passos
Que me guiassem
Me levassem
E me perdessem.
Perdi-me.
Completamente.
Deitei o mapa fora,
E fui:
Outra vez.
 

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Hoje chove


Hoje chove na minha casa.
Chove tristeza,
Chove dor,
Desilusão.
As suas gotas ferem,
Arrasam com a esperança
De tão singela visão:
Apenas um parco arco-íris
Um dia em construção.
Ao de leve, a vida pesa.
Sem sentir, a mão fere.
Ainda sem saber,
A realidade magoa.
Cada vez mais molhada,
O meu corpo imobiliza;
Os sentidos entorpecem
Na frieza lutuosa
De uma noite ainda por chegar:
Ainda por viver,
Mas ansiosa por me ver sofrer.
Não dou luta.
Mantenho-me anestesiada:
Drogada na alma.
Adormecida na estrada.