terça-feira, 2 de abril de 2013

Ausência

E doeu como nunca pensou ser possível. Doeu todos os dias um pouco mais. A ausência dele fê-la ausentar-se de si mesma. Se ele não estava, ela também não: apenas permanecia o corpo que tantas vezes foi seu; permanecia o rosto que ele tantas vezes acariciara; permanecia a voz - que só fazia sentido quando ele a ouvia.

O resto de si estava nele: cravado em cada momento em que julgaram ser imortais; em cada memória que ainda queimava no seu peito. Ele ainda ardia nela; ainda soprava chamas no seu coração com a mesma intensidade do primeiro olhar. Só que agora nem ela própria sabia onde procurar por si. E o seu corpo fracassou, esfomeado de si, pedindo por ele num mundo que não era mundo se ele não estivesse; numa vida que não era sua, se não a partilhassem.

 E ausência dele acabou por matá-la lentamente e, nem por um segundo, ela fez por se levantar. Aguentou uma existência cega, onde apenas estava viva na escuridão dos sonhos; onde ele a esperava, transformando a ausência no alimento dos seus dias com a força de um simples “Amo-te”.  Só por um segundo fingir que a eternidade de uma vida inacabada durou o momento de um último sorriso de amor.

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